quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Jornalista se dá mal tentando lacrar com Sérgio Moro

A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.

Gabriel García Marquez

O imbróglio entre a J&F Investimentos, controladora da JBS, e a Paper Excellence, empresa indonésia sócia da Eldorado Brasil Celulose, que pertence ao grupo J&F Investimentos ganhou mais um personagem e mais um processo na Justiça contra o jornalista Claudio Tognolli, conforme divulgado pelo site Poder 360 no dia 17 de novembro de 2020.

A JBS entrou com processo contra o jornalista Claudio Tognolli pela publicação da reportagem “[Sergio] Moro é subcontratado pela JBS.“ A notícia é mentirosa. A JBS disse que o escritório da empresa, o Warde Advogados, contratou Moro para fazer parecer num trabalho que envolve a Vale e não a JBS.

E, claro, Tognolli, apesar de ser desmascarado, apelou para o mesmo lengalenga da perseguição e censura ao jornalismo, coisas que parecem não constar do script deste capítulo, já que, conforme o Poder 360 “O Warde Advogados contratou Moro para fazer parecer de uma disputa judicial entre o israelense Benjamin Steinmetz e a Vale.” Na ação contra Claudio Tognolli, a JBS pediu à Justiça que desse 48 horas para ele se explicar a respeito da notícia falsa por ele publicada.

Na própria reportagem, Tognolli foi ouvido e afirmou que se baseou em notícia publicada pelo site O Antagonista. Entretanto, em momento alguma O Antagonista cita a JBS como destinatária do parecer jurídico encomendado. Ito foi deduzido por Tognolli e ele próprio antecipa um “Vamos traduzir”, com um texto pobre e recheado de impropriedades que até induz a se pensar que foi escrito pelo “estagiário” – com todo respeito -, do jornalista.

Walfrido Warde é um dos maiores escritórios (sic) prestando serviços para a JBS e que contrataram Leandro Daiello e Valdir Simão, que atuam em casos da empresa! Agora Warde também contratou Moro! Aparentemente a JBS está contratando toda a sua estrutura judiciária e policial do Brasil quando se aposentam, via o escritório do Warde!!

Mesmo que fosse verdade o fato de Sérgio Moro ter sido contratado pelo escritório Warde Advogados para elaborar um parecer jurídico para a JBS, isto não configuraria qualquer deslize de sua parte, pois ele não é mais juiz, sendo um advogado e a função do advogado é defender o cliente, seja ele quem for.

Afinal de contas, Tognolli deveria saber que o direito de defesa é um direito fundamental inerente à pessoa humana e está elencado em nossa Constituição Federal de 1988, no seu artigo 5º, inciso LV, nos seguintes termos:

Aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.

Tognolli também aproveitou a sua dita “tradução” para citar como contratado do mesmo escritório de Advocacia o ex-diretor geral da Polícia Federal, Dr. Leandro Daiello Coimbra, como se a contratação de um profissional do Direito por uma banca que defende, entre outras empresas e pessoas, a JBS, fosse o mesmo que adesão ao crime organizado. Vergonhoso jornalismo!

Daiello é, de fato, um contratado do escritório Warde Advogados, que possui um quadro funcional de 23 profissionais e sua fotografia está na primeira fila, com um pequeno currículo sobre sua vida profissional:

Responsável pela Direção da Policia Federal do Brasil entre 2011 e 2017, quando foram desenvolvidas as maiores ações de combate à corrupção do país, incluindo a Operação Lava Jato. Possui notório conhecimento em investigações internas.

Delegado de Polícia Federal por mais de 22 anos, tendo atuado na área de entorpecentes, contrabando, lavagem de dinheiro, crime organizado. Foi Superintendente da PF em São Paulo. 

Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e com MBA em Gestão de Segurança Pública pela Fundação Getúlio Vargas.

Usar o manto da proteção à manifestação do pensamento previsto na Constituição Federal (art. 220) para mentir ou lançar dúvidas sobre a honra alheia deixa de ser jornalismo para singrar os mares tormentosos do crime. Às vezes, querer lacrar com o nome de pessoas decentes, acaba sendo o melhor caminho.

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