sexta-feira, 31 de julho de 2020

A ordem geral é roubar a Nação

Queremos acabar com a impunidade, por isso devemos encorajar as instituições que combatem o crime dentro da lei.
José Alencar Gomes da Silva [1931-2011]

No artigo de ontem (caso não tenha lido, vá primeiro ao artigo abaixo deste), eu apresentei os termos da Representação feita por mim ao Ministério Público Federal, através da Sala de Atendimento ao Cidadão da Procuradoria-Geral da República, contra o procurador-geral, Augusto Aras, pelos ataques feitos por ele à Operação Lava Jato, pedindo investigação e tomadas de providências.
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Minha Manifestação foi prontamente encaminhada à Ouvidoria da PGR, que ontem me encaminhou o despacho abaixo, com o qual não concordei e pedi que a decisão fosse reconsiderada, no sentido de encaminhar minha Representação à Corregedoria da Instituição. Além disso, entrei em contato com a ANPR - Associação Nacional dos Procuradores da República relatando o fato e pedindo apoio para pressionar a Corregedoria da PGR a investigar as reais motivações de Augusto Aras em querer destruir a Operação Lava Jato.

Bolsonaro, depois da saída de Sérgio Moro, transformou o Ministério da Justiça em órgão de Inteligência Policial e de repressão a oposicionistas. Segundo a reportagem do UOL, a pasta "produziu um dossiê com nomes e, em alguns casos, fotografias e endereços de redes sociais das pessoas monitoradas", que somam 579 servidores federais e estaduais que seriam ligados ao Antifas e a movimentos pró-democracia. O dossiê produzido pela gestapo de Bolsonaro foi repassado a órgãos políticos e de segurança do país e pode ser usado, por exemplo, como subsídio para perseguições políticas dentro dos órgãos públicos.
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A Democracia no Brasil nunca esteve t]ao ameaçada. Talvez, não através de uma intervenção armada, mas a consolidação de uma Cleptocracia - governo de bandidos -, que saqueará, mais uma vez e com maior impunidade os cofres públicos, depois das Instituições responsáveis pela investigação e pela repressão ao crime organizado e de corrupção forem desmantelados por ação do Governo Federal.
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Não se iluda. O novo ministro da Justiça trocou os principais superintendentes da Polícia Federal por alguém que terá de remar muito para chegar onde estavam as investigações e, quando estiver atingindo alguém da Organização Criminosa comandada por Jair Bolsonaro, ele será novamente trocado.

Augusto Aras faz a sua parte no funesto acordo que fez com Bolsonaro para ganhar o cargo de procurador-geral da República: desmantelar as forças tarefas e denegrir a imagem da Lava Jato para tentar atacar, frontalmente, o ex-juiz Sérgio Moro, para que ele perca prestígio e votos para a eleição de 2022. E Dias Toffoli, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, também partes operantes do acordão brasiliense, organizam e fomentam a criação de norma impeditiva à candidatura de Sérgio Moro e a criação de CPMI para investigar a Lava Jato, dando palanque para o Centrão corrupto e a esquerda idém assumirem o protagonismo de destruir a Operação Lava Jato e seus proeminentes líderes.
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Bolsonaro se alinha à pior espécie de gente e trai a todos nós que depositamos nele a esperança de reconstruir o país, com o austero combate à corrupção. Foi esta a sua promessa de campanha. Mas, preferiu aderir à corruptela, se é que um dia esteve longe dela. Só a história nos contará a verdade em torno deste traidor da Pátria!


Os Simpsons, em episódio que foi ao ar em 2014, "prevê" a nota de R$ 200,00 e enfoca a corrupção no Brasil.



quinta-feira, 30 de julho de 2020

O conluio entre compadres para destruir a Lava Jato

O poder é a escola do crime.
William Shakespeare

Representação à Procuradoria-Geral da República (Manifestação nº 20200158563) feita por Bernardino Coelho da Silva, no dia 29 de julho de 2020 e que se encontra em análise pela Ouvidoria do MPF.
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Fatos: Em debate virtual promovido pelo grupo de advogados intitulado "Prerrogativas" - grupo que defende o lulismo ou a "Corrupção como estratégia de Poder" -, no dia 28 de julho de 2020, o procurador-geral da República, Antônio Augusto Brandão de Aras, atacou indiretamente, mas, de forma sórdida e traiçoeira, membros do Ministério Público Federal e representantes de órgãos de controle e fiscalização lotados na Operação Lava Jato, em Curitiba, e, diretamente, à Operação Lava Jato, ao afirmar que "é hora de corrigir rumos para que o lavajatismo não perdure", como se todo o trabalho até então empreendido por seus procuradores da República se resumisse a falas de panfletagem típicas da corruptela política e alinhadas com aqueles que querem se aproveitar da desorganização das instituições repressoras do crime organizado para continuarem impunemente roubando os cofres públicos.
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O senhor procurador-geral da República, agiu de forma irresponsável, prestando um desserviço ao país, ao afirmar que a força-tarefa de Curitiba é uma "caixa de surpresas" exemplificando que teria descoberto 50 mil documentos em posse da força-tarefa, como se isto fosse um crime. Afinal, o que eles mantêm arquivado são documentos relacionados com investigações e provas documentais.
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E mais, o PGR Augusto Aras, levantou a hipótese, de forma leviana e, por que não, criminosa, que a força-tarefa poderia vir a utilizar informações e dados de investigações para chantagear e extorquir pessoas, com a clara intenção de desmoralizar a Operação Lava Jato, que tanto tem contribuído para a punição a crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e outros.
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Engraçado - se é que tal palavra seja apropriada em momento tão triste -, que é, justamente agora que o Palácio do Planalto se alinha, com medo de um Impeachment, com o famigerado Centrão - reunião de corruptos de alta linhagem & Cia -, que, seguramente, irá aproveitar para desviar bilhões de reais para seus largos bolsos, que o PGR Augusto Aras toma medida tão asquerosa contra a Lava Jato.
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Ele, que foi alçado ao cargo de procurador-geral sem a anuência de seus pares, mas através de negociações com o presidente da República, se une aos críticos interessados na esbórnia nacional com dinheiro público, para atacar os valorosos membros do MPF e destruir o que chegou a ser considerado pela Sociedade como uma instituição das mais valorosas do país.
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Mas ela atrapalha os planos de muitos e, por isso, é preciso "estancar a sangria"...
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Há de se considerar também que o PGR Augusto Aras já está chegando ao fim de seu primeiro ano à frente do MPF, tendo apenas mais um ano de mandato, que poderá ser renovado, caso Jair Bolsonaro entenda que ele merece pelos "bons trabalhos prestados".
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Enfim, tudo isto é muito vergonhoso e trágico para nosso país, que sempre foi roubado desavergonhadamente e impunemente pelos políticos, até que surgiu a Operação Lava Jato para colocar os graúdos na prisão e dar ao povo brasileiro o direito de sonhar que um dia o Brasil alcançaria o tão sonhado lugar de destaque entre as nações civilizadas.
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Mas, tudo parece escoar pelo ralo do Poder que deveria mais se preocupar em estar ao lado do povo, nesta luta desigual contra os corruptos com foro privilegiado. Mas, o que vemos, envergonhados, é o chefe do MPF se aliar a advogados interessados em causas envolvendo corruptos de alta linhagem, para atacar, inescrupulosamente, membros das forças tarefas da Lava Jato e, com isto, proteger interesses escusos e repugnantes, de quem mata mais que o Covid-19, porque além de manter a fome, a falta de saúde e de educação de milhões e milhões de pessoas, enterra nossa esperança de que, um dia, o Brasil alcance o tão propalado futuro, que nunca chega, porque no caminho vai sendo devorado pelos milhares de corruptos encastelados no planalto central. Agora, abençoados pelo PGR AUGUSTO ARAS! 

Pedido: Solicito abrir investigação para identificar as reais motivações que levaram o PGR Augusto Aras até desferir este golpe mortal contra a Lava Jato e tomar as medidas requeridas para autuá-lo por crimes praticados contra a Sociedade brasileira, na figura da Operação lava Jato. Abrir um processo de impedimento do mesmo para que possamos salvar o Brasil de mais este golpe contra a Justiça e a favor da bandidagem nacional.
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Bernardino Coelho da Silva



terça-feira, 28 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (8)

Num estado democrático existem duas classes de políticos: os suspeitos de corrupção e os corruptos.
David Zac

Continuação:
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No dia seguinte, o Correio voltava ao assunto:
A prevalecer no julgamento do Superior Tribunal Militar o parecer do ministro Leônidas Pires Gonçalves, que ratificou a posição do Conselho de Justificação, os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Silva, serão excluídos do Exército com a perda da patente, por terem faltado com a verdade para com o ministro do Exército na entrevista concedida à revista Veja, onde os oficiais criticaram veementemente a instituição militar a que pertence. 
O jornal também dizia que havia uma expectativa entre os ministros militares de que todos os ministros do STM votariam “pela exclusão dos dois oficiais”, mas também havia “a possibilidade de um consenso entre eles no sentido de reformá-los no posto”.
O capitão Bolsonaro, durante os quatro meses que durou a Instrução Criminal Militar, não requereu ou aceitou advogado indicado, tendo ele próprio feito sua defesa escrita. Somente no julgamento, é que ele foi defendido pela advogada Elizabeth Diniz Martins Souto.
.Dos quinze ministros do Superior Tribunal Militar (STM) apenas dois – general Jorge Sant’ana e brigadeiro Jorge de Carvalho -, não participaram do julgamento dos capitães Jair Bolsonaro e Fábio Passos.
O plenário do Tribunal foi composto pelos generais Sérgio de Ari Pires (relator do processo do capitão Jair Bolsonaro), Ericssen da Fonseca (relator do processo do capitão Fábio Passos) e Auzir Chaloub; brigadeiros Belham da Mota e Antônio Geraldo Peixoto (presidente); almirantes Rafael de Azevedo Branco, Lael Ferreira e Andersen Cavalcante; ministros civis Paulo César Cataldo, Aldo Fagundes, José Luiz Clerot, Rui Pessoa e Antônio Carlos Seixas Teles.

A sessão de julgamento ocorrida no dia 16 de junho de 1988, teve início com a leitura do relatório do general Sérgio de Ari Pires, que discorreu sobre o libelo acusatório do primeiro Conselho de Justificação. Depois, muito tempo se perdeu devido a uma questão de ordem, onde se discutia se o representante do Ministério Público Militar poderia ou não falar, tendo sido definido, ao final do imbróglio, que não lhe seria permitida a palavra.
(...)
No dia 16 de junho de 1988, o julgamento do capitão Jair Messias Bolsonaro, no STM, que teve início às 13h30, às 17h30 horas passou a ser secreto e só terminou às 23h15, quando o presidente do Superior Tribunal Militar mandou entrar a imprensa, e anunciou: “Estando em sessão pública, vou declarar o resultado dessa sessão secreta: por maioria de votos o capitão Bolsonaro foi julgado não culpado”. Os ministros do STM decidiram, por nove votos a quatro considerar o capitão Jair Bolsonaro “justificado”, o que o livrou da ameaça de exoneração e perda da patente de capitão. No dia anterior, o capitão Fábio Passos da Silva também havia sido absolvido pelo Superior Tribunal Militar.


Os oito ministros que seguiram o voto do relator foram: Ruy de Lima Pessoa, Antônio Carlos de Seixas Telles, Roberto Andersen Cavalcanti, Paulo Cesar Cataldo, Raphael de Azevedo Branco, Alzir Benjamin Chaloub, George Belham da Mota e Aldo Fagundes (revisor). Quatro votaram pela culpa e pela reforma do capitão: Antônio Geraldo Peixoto, José Luiz Clerot, José Luiz Leal Ferreira e Haroldo Erichsen da Fonseca.
O revisor do processo, ministro Aldo Fagundes entendeu que o capitão Bolsonaro havia se deixado levar pela vaidade e afirmou: “essa caminhada do anonimato à notoriedade é muito difícil”. Mas ao fim, disse que isso era “muito pouco” para afastar o militar do Exército.
Em contraponto ao revisor, o ministro civil, José Luiz Clerot, considerou o capitão Bolsonaro culpado e afirmou que estava em jogo naquele julgamento era a mentira do réu, a quem atribuiu a autoria dos croquis.
(...) Nunca, nem antes de 64, se não me falha a memória, um capitão teve a coragem de afrontar um chefe militar. Naquela reportagem, esboço, como pode ser visto, foi publicado mostrando a adutora do Guandu, que abastece a água do Rio de Janeiro e o croqui de uma bomba junto à tubulação. Será que esta jornalista, que está aqui presente, é capaz dessa engenhosidade? O que está em jogo aqui é a mentira do capitão Bolsonaro. Esta é que está sendo examinada. É indiscutível que estes fatos ocorreram. Não tem dúvida... (...)
(Continua)


A fábrica criminosa de notícias falsas

Quem sabe, muitas vezes não diz. E quem diz muitas vezes não sabe.
Máxima do jornalismo investigativo

O presidente Jair Messias Bolsonaro, continua agindo para sua torcida, alheio ao que de fato se passa na República ou fingindo que não vê, como em sua mais nova invencionice ao protocolar Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI) questionando a constitucionalidade da decisão do ministro Alexandre de Moraes que determinou a retirada, pelo Twitter e pelo Facebook, de contas fake de pessoal ligado ao Gabinete do Ódio, patrocinado por empresários bolsonaristas e pelo Governo Federal.
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Acontece, que na referida ADI, assinada pela AGU e pelo próprio presidente da República, não há questionamentos legais com corpo suficiente para causar a mudança da decisão tomada pelo STF, e está sendo classificada no meio jurídico como um discurso feito para agradar os apoiadores do presidente, apenas batendo na tecla de que é preciso respeitar a liberdade de expressão consagrada na Constituição Federal.
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Quem viu ou leu as mensagens do presidente do PTB, o mensaleiro Roberto Jefferson, um dos que são defendidos por Bolsonaro, já que agora são unha e carne, deve ter ficado enojado da baixaria que este senhor utilizou para atacar a honra de ministros da Suprema Corte. A decisão do ministro Alexandre de Moraes foi até serena, pois o que este sórdido mensaleiro e amiguinho dos Bolsonaros fez merecia cadeia. Para um amigo, com quem comentei o fato, fui além: ele merecia levar um tiro na cabeça, pois em nada sua fala dizia respeito a críticas amparadas pela "liberdade de expressão"; ele cometeu crimes e deve ser punido por isso.
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A defesa que Bolsonaro faz dessa gente reflete bem o seu mau caratismo; um sujeito que jurou lealdade a um programa de governo que contemplava uma ferrenha luta contra a corrupção, se vendeu à bandidagem do Centrão para salvar o filho mais velho, tesoureiro da família em negócios ilícitos, da prisão e, por consequência, o resto da família envolvida em crimes de lavagem de dinheiro, improbidade, desvio de dinheiro público e outros a serem ainda desnudados pela Polícia Federal.
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O ministro Edson Fachin, um dos que foram sordidamente atacados pelo mensaleiro Roberto Jefferson foi sorteado para relatar a ADI da AGU/PR, que nada tem de interesse público envolvido, mas foi feita para a defesa de particulares, que usurparam o direito à liberdade de expressão, para produzir fake news, atacar a honra de pessoas e destruir reputações, especialmente de quem poderá vir a concorrer em 2022 à Presidência da República, como é o caso do ex-juiz Sérgio Moro, que todo dia é enxovalhado pela Organização Criminosa comandada pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu filho Carlos Bolsonaro & Cia.
O agora ex-presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes declarou, depois de pedir demissão do cargo na semana passada, não ter se adaptado ‘à cultura de privilégios, compadrio e corrupção de Brasília’.
Está aí um trecho da verdadeira história da família Bolsonaro que ficou milionária depois que entrou para a política e ainda tem idiota que acredita que essa turma á honesta...
wNo pedido ao STF, o governo reclama de “decisões judiciais” que violariam os direitos constitucionais de usuários de redes sociais. Mas não aponta que decisões seriam essas. “Arrisco dizer que ação sequer pode ser conhecida, porque para alegar conflito de decisões com a Constituição, precisa apontar o conflito de maneira concreta”, comentou o ex-AGU, segundo O Antagonista.
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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (7)

Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
Friedrich Nietzsche

(Continuação)

No dia 26 de fevereiro de 1988, o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, depois de mais de 20 dias de “cautelosa análise”, acolheu sugestão do Conselho de Justificação, decidiu afastar os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva, pois segundo disse o ministro, na ocasião, com a imprensa, eles haviam faltado com “a honra e a verdade” – conceitos basilares da instituição -, ao não admitirem a autoria do plano denunciado por Veja diante do Conselho de Justificação.
- Honra e verdade. Esta é a base na qual espelhamos todos os critérios para punir esses jovens capitães, que esqueceram uma coisa basilar para nós, que é a verdade. O primeiro item do RDE - Regulamento Disciplinar do Exército diz que não se deve faltar com a verdade, que é a própria honra dos militares.
O Conselho de Justificação emitiu, então, o devido libelo acusatório e a questão foi remetida ao Superior Tribunal Militar (STM).
- Fizemos um Conselho de Justificação, que decidiu indicar o afastamento destes capitães das Forças Armadas. Eu acolhi a sugestão - afirmou o ministro do Exército -, e remeti ao Superior Tribunal Militar para deliberação.
Ainda no dia 26 de fevereiro, o Superior Tribunal Militar, então presidido pelo brigadeiro Antônio Geraldo Peixoto, realizou uma sessão pública para sortear o relator e o revisor para o processo, tendo sido, no caso do capitão Jair Bolsonaro, sorteado para relator o general Sérgio Ary Pires e para revisor, o ministro Aldo Fagundes (civil).
De acordo com o brigadeiro Peixoto, o trabalho do Tribunal Militar “era uma tarefa muito árdua, pois se trata da vida de um militar que pode ter sua patente cassada ou passar para a reserva”.
Embora de posse de toda a documentação que embasou a decisão do Conselho de Justificação, inclusive laudos periciais do Exército – que isentavam Bolsonaro de ter feito os croquis -, e laudos periciais da Polícia Federal que colocava em dúvida a autoria dos croquis, o Superior Tribunal Militar tinha total liberdade para o julgamento e até mesmo recomeçar toda a investigação.
Dois dias depois, durante cerimônia de inauguração de novos pavilhões para a Academia Militar de Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ), um oficial ligado ao Ministério do Exército disse que o Exército iria punir “com rigor” todo oficial da ativa ou da reserva, “que por meio de suas declarações” atingissem a instituição militar, desviando assim “da orientação profissional adotada”.
Entretanto, o mesmo oficial disse que fatos de indisciplina ocorridos na Arma não era motivo de preocupação, corroborando fala do próprio ministro, general Leônidas Pires Gonçalves, para o qual meia dúzia ou mais de indisciplinados não abalariam a instituição militar que detinha um quadro de 211 mil homens.
Apesar de ter sido dito pelo ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, que os dois capitães seriam afastados do serviço para responderem a processo no STM, isso não aconteceu e eles continuaram cumprindo, normalmente, suas rotinas de alunos da Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais. E isto, porque o STM indeferiu o pedido do ministro do Exército de afastamento dos capitães.
Esta decisão do STM parecia ser uma afronta para a editoria do Jornal do Brasil, que foi cobrar uma explicação junto ao Superior Tribunal Militar (STM).
- Eles podem, inclusive, ser promovidos, já que até agora não se encontram sub judice. Somente depois de julgados pelo STM, os capitães, se forem condenados, começarão a sofrer as punições. Se forem condenados, poderão passar para a reserva com vencimentos ou, na pior das hipóteses, ter suas patentes caçadas, disse ao jornal um assessor do Tribunal Militar.
Em defesa da posição do ministro Leônidas Pires Gonçalves em atacar o capitão Jair Bolsonaro por indisciplina, o jornalista A. C. Scartezini escreveu para o Correio Braziliense, no dia 29 de fevereiro de 1988, o artigo “Contragolpe”, que foi publicado na página 2 do jornal:
(...) Seja qual for a posição da Justiça Militar, o Ministro do Exército percorre os caminhos legais para expor publicamente a ação dos capitães que tramam contra o poder civil e, no caso da Vila [Militar], mentem ao superior, como se comprovou em processo. Poderia o general Leônidas encaminhar os capitães aos desvios comuns da carreira militar para congelar os indesejáveis. Prefere o processo público e formal.
É o contragolpe do general Leônidas contra o golpismo e o terrorismo dos inconformados com a ordem institucional. Dentro do rigor da lei e da disciplina, corta os caminhos dos futuros generais Noriega brasileiros, a derrubar presidente, escolher seus sucessores e impor o rumo das instituições como se nação fosse deles uma propriedade privada.
Recebem os acusados o rigor e os benefícios da lei. Prestam conta de seus atos e recebem a oportunidade de defesa, como os acusados de crimes comuns, sem contemporizações ou privilégios. Não há risco a correr nesse processo, a não ser o de prevalência da anarquia – no caso de omissão.

Continua...


domingo, 26 de julho de 2020

Gestos e seus significados

A vida tem caminhos estranhos, tortuosos, às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo.
Caio Fernando Abreu

O escritor Nazareno Vieira de Souza, que usa o pseudônimo "Augusto Branco" para assinar suas obras, escreve sobre a força do exemplo: "Seja o exemplo de tuas palavras e haverá um momento em que não precisarás dizer nada sobre coisa alguma. Tuas atitudes falarão por ti!"
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O bom exemplo constrói gestos e ações positivas junto a quem os percebe. Assim, também, ocorre em relação aos maus exemplos, o que nos faz imaginar que alguém que receba das urnas a confiança em exercer um cargo eletivo deveria sempre procurar dar o melhor exemplo. Mas, infelizmente, não é a realidade do Brasil, especialmente vindo do mandatário máximo da República, o presidente Jair Messias Bolsonaro.
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Bolsonaro montou e mantém o maior esquema de produção e distribuição de notícias falsas e agressão a supostos adversários e a quem não aceita ser subjugado por suas ideias retrógradas e corruptas. E vemos milhares de pessoas utilizando tais fake news para ilustrarem nas redes sociais seu apoio ao famigerado "mito", que não passa de mais um político corrupto e aliado à pior escória já criada pelo Congresso Nacional.
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O Supremo Tribunal Federal agiu para obrigar o Facebook e o Twitter a retirar do ar as páginas ligadas a criminosos digitais e, logo, o presidente da República entra com ação, através da AGU, questionando a constitucionalidade da decisão do STF. Dois problemas: incentiva a produção e disseminação de notícias falsas por parte de seus apoiadores e está usando a AGU para defesa de particulares, o que não é legal.
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Desde o início desta Pandemia, Bolsonaro agiu para negar a sua virulência, chegando a chamá-la de "gripezinha" ou "resfriadinho", passou a chamar de "viado" qualquer pessoa que entrava em seu Gabinete usando máscara e saindo por Brasília sem máscara e provocando aglomeração de seus apoiadores e o consequente risco da disseminação do Covid-19. 
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Agora, vem as consequências: 2,8 mil pessoas [1] que trabalham para o Palácio do Planalto (pessoal direto e terceirizado) tiveram de ser colocados em home office, já que o presidente foi infeccionado pelo vírus (como se isso fosse possível!) e mais de 30 servidores também foram acometidos pela doença.
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E, pelo presidente insistir em alardear que o vírus não lhe causou qualquer problema, exceto ter ficado em relativo isolamento, leva seus apoiadores a renegarem ainda com maior força o uso da máscara e  coisa vira uma bola de neve, com todo mundo achando que o problema não vai chegar até ele e toma irresponsabilidade.
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Estamos vindo de 16 anos de governo do PT e MDB, quando tivemos dois grandes focos de corrupção: o Mensalão e o Petrolão, com a descoberta de desvios de dinheiro público, na casa de bilhões e bilhões de reais. E grande parte dos eleitores de Bolsonaro acreditaram que ele, de fato, iria trabalhar no combate à corrupção, pois chegou a convencer o juiz Sérgio Moro a deixar 22 anos de Magistratura para ser seu ministro da Justiça e disse que ele teria total liberdade para escolher seus auxiliares. 
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Mas, o que vimos foi o ministro não suportando a pressão para desmontar a PF e deixando o cargo e o caminho ficou livre para Bolsonaro se aliar à bandidagem nacional, aliás, coisa que parece ele sempre esteve ligado, mas somente agora começa a ficar transparente.
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Flávio Bolsonaro não é somente mais um político encrencado com a corrupção; ele, pelo que tudo indica, é o tesoureiro da família e toda ela está envolvida com mil e uma maracutaia, com dinheiro de propina e rachadinha, formando uma organização criminosa familiar que, para tentar se safar, se une ao Centrão - máfia da política -, e dá aos políticos a chave dos cofres públicos, como se dele fosse, para blindar seus filhos, esposa e a ele próprio. Isto é exemplo; mau exemplo. Bolsonaro é um mau exemplo! Alias, UM PÉSSIMO EXEMPLO!
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[1] Você não leu uma fake news. Ligados ao Palácio do Planalto tem 2,8 mil pessoas. Para se ter uma ideia, somente no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) comandado pelo general Augusto Heleno, tem 100 (cem) motoristas. 

sábado, 25 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (6)

Os políticos e a as fraldas são semelhantes, possuem o mesmo conteúdo.
Eça de Queirós
(Continuação)
No dia seguinte, a repórter Cássia Maria depôs no Conselho de Justificação, em sessão que durou cerca de três horas, voltando a reafirmar os dados da reportagem de Veja, além de citar nomes de outros oficiais que saberiam, segundo ela, da existência do plano de detonar bombas nos quartéis e teria entregado documentos que a revista não tinha usado nas publicações.
Durante oito horas, o Conselho de Justificação, no dia 6 de janeiro de 1988, realizou na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e na Primeira Divisão do Exército, na Vila Mariana, acareação entre a repórter Cássia Maria Rodrigues e os capitães Jair Bolsonaro e Fábio Passos. Participaram ainda da acareação os motoristas da revista, Francisco Carlos Macedo Sodré e Luiz Antônio da Silva Coelho e o fotógrafo Ricardo Chvaicer.
Na oportunidade, os capitães voltaram a negar - como o fizeram logo depois da publicação da primeira reportagem da revista - terem prestado qualquer declaração à repórter ou mesmo que a tivessem encontrado.
O capitão Fábio Passos disse em sua defesa, que no dia 21 de outubro – data em que a repórter afirmou ter estado em seu apartamento, ele e sua esposa lancharam na casa de uma vizinha de nome Luíza, esposa de um oficial militar.
Lígia, esposa do capitão Fábio Passos passou a maior parte do tempo nervosa e chorando muito. Em sua vez de ser inquirida, Lígia disse que não conhecia e que nunca havia falado com a repórter Cássia Maria, confirmando como sendo de sua residência o número de telefone exibido pela repórter, como indício de que já havia telefonado para a esposa do capitão, mas que não configurava qualquer tipo de prova do que afirmava, pois números de telefones eram facilmente acessíveis.
A esposa do capitão Bolsonaro, Rogéria Nantes Bolsonaro, durante todo o tempo de acareação, manteve-se calada, não respondendo a qualquer pergunta formulada por membros do Conselho de Justificação.
Por seu turno, Jair Bolsonaro chamou a repórter Cássia Maria de mentirosa por dizer ter sido convidada a ir à sua residência e disse que ela havia chegado lá de surpresa e que ele somente a recebera por cortesia. Além disso, Bolsonaro disse que a presença dela teria criado mal-estar com o capitão Júlio Lemos, que o visitava e que não gostou da presença da repórter.
De acordo com Bolsonaro, por ter ficado aborrecido em ver Cássia Maria adentrando o apartamento, o capitão Júlio Lemos teria “feito um discurso contra o que ele chamou de imprensa sensacionalista”.
Apesar de todas as negativas dos capitães Bolsonaro e Fábio Passos sobre terem dado informações à repórter e até mesmo de afirmarem não conhecer Cássia Maria, a acareação terminou com os advogados da revista, Virgílio Donnici e Márcio Donnici (filho do primeiro), exultantes, porque, para eles, o caso estava devidamente caracterizado.
- Cada motorista sabe de um fato diferente do outro, assim como o fotógrafo sabe de outro detalhe. Juntando-se tudo, confirmou-se a matéria de Cássia e a veracidade dos fatos contidos nela, afirmou Virgílio.
Em sessão ocorrida no dia 25 de janeiro de 1988, o Conselho de Justificação decidiu, por unanimidade, considerar Bolsonaro culpado:
O justificante [Jair Messias Bolsonaro] mentiu durante todo o processo, quando negou a autoria dos esboços publicados na revista Veja, como comprovam os laudos periciais do Instituto de Criminalística da Polícia Federal e do 1.º Batalhão de Polícia do Exército.

Além disso, o Conselho indicou em sua decisão que o capitão Bolsonaro apresentava “desvio grave de personalidade, deformação profissional e falta de coragem moral para sair do Exército”. Por esta decisão, de acordo com a legislação militar (Lei n.º 5.836, de 5 de dezembro de 1972), que definia o campo administrativo, como o de atuação do Conselho de Justificação, o seu parecer deveria ser encaminhado, obrigatoriamente, ao ministro Leônidas Pires Gonçalves, que poderia acatá-lo ou recusá-lo.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (5)

O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior.
Platão [427 a.C.-347 a.C.] filósofo grego da Antiguidade
(Continuação) Mas o ministro do Exército não queria um Conselho de Justificação qualquer; ele queria colocar para fora das fileiras da Arma o capitão Bolsonaro, que tanto o atacava da tribuna da Câmara dos Deputados, por conta dos baixos salários dos militares. Para isso, mandou que toda a vida do capitão fosse vasculhada.
Ainda no dia 18 de novembro, o serviço de Inteligência pedia à Academia Militar das Agulhas Negras informações sobre fatos pregressos praticados pelo capitão Bolsonaro: “Solicita informar o que consta sobre o envolvimento do nominado, no ano de 1983, com relação a transações no garimpo de ouro”.
Como Bolsonaro já havia respondido por este caso e justificado não ter obtido qualquer lucro com a aventura feita, em período de férias, ao garimpo referido, o que também foi confirmado por seus companheiros de aventura, a Aman informou nada haver a este respeito até aquele momento.
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Além de determinar a criação do Conselho de Justificação, o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, ainda fez publicar um editorial intitulado “Caserna, lugar de honra” no “Noticiário do Exército”, através do qual, de forma velada, considerava os dois capitães indignos do oficialato, ao condenar a mentira como um vírus maligno que corrói a camaradagem. E o editorial batia firme no capitão Bolsonaro, como neste trecho:
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Quem não tem coragem para assumir as responsabilidades pelos atos que praticou e falseia a verdade para fugir a este dever dá abominável exemplo e demonstra, de modo inequívoco, que não está à altura dos valores que são a marca, a força e o orgulho de nossa profissão.
Durante entrevista à imprensa, confirmou sua posição, o que era, na verdade, uma condenação prévia, indicando ao Conselho de Justificação, o resultado que ele esperava de sua investigação dos fatos. “A Veja estava certa e o ministro errado. Lamentavelmente, tenho que dizer aos senhores: quem pensa que está sempre certo, talvez seja a Veja. Eu reconheço que estava errado”, disse.
O Conselho de Justificação responsável pelo caso do capitão Bolsonaro foi instalado no dia 8 de dezembro e era composto pelo coronel Marcos Bechara Couto, presidente, e pelos tenentes-coronéis Nilton Correa Lampert, interrogante e relator, e Carlos José do Couto Barroso, escrivão.
Com a instalação do Conselho de Justificação, nomeados no dia anterior, através de Portaria Reservada do Ministério do Exército, era formalizada a acusação de “conduta irregular, ter praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”.
O Conselho ouviu o capitão Jair Bolsonaro diversas vezes, quando a negativa sobre a autoria do planejamento de atentados a bomba foi mantida. O Conselho também ouviu jornalistas e o editor de Veja, oficiais do Exército que eram vizinhos de Bolsonaro, as esposas de alguns deles, incluindo Rogéria, mulher do capitão Jair Bolsonaro e Lígia, esposa do capitão Fábio Passos. O Conselho também ouviu generais – entre eles o general Newton Cruz.
Desde o dia 28 de dezembro de 1987, a repórter Cássia Maria Rodrigues, que havia sido despedida, estava com escolta de três militares, 24 horas por dia, pois seu advogado, Márcio Donnicci, peticionou junto ao Conselho de Justificação, alegando que ela havia sido ameaçada de morte pelo capitão Jair Bolsonaro, justificando que Cássia Maria aguardava na antessala do coronel Marcos Bechara, que presidia o Conselho de Justificação, quando o capitão Bolsonaro lhe fizera um gesto com as mãos “como se estivesse disparando um revólver contra a jornalista”. (gesto característico de Bolsonaro até hoje).

Mas, Cássia Maria, acrescentou que, diante deste gesto, ela teria perguntado a Bolsonaro se era uma ameaça de morte e que ele lhe respondeu que não, mas que ela “poderia se dar mal se continuasse com aquela história”. (Continua amanhã).


quarta-feira, 22 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (4)

Na verdade, estamos todos perdidos, querendo encontrar algo ou encontrar a nós mesmos.
Filosofia de beco

(Continua) Assim, Veja em sua edição de n.º 1.000, voltou a pressionar o ministro Leônidas Pires Gonçalves, acusando-o de ter optado em ficar com o joio, quando deveria ter, no caso dos capitães Fábio e Bolsonaro, separado o trigo - que seria a oficialidade do Exército, do joio – que seriam, nas palavras da revista “dois capitães que, além de estarem envolvidos no planejamento de atos de indisciplina e de crimes contra a instituição militar e suas instalações, estavam também mentindo”. E a revista divulgou dois croquis, que segundo a repórter Cássia Maria teriam sido feitos pelo capitão Jair Bolsonaro.
Além disso, a editoria de Veja informou que “o fotógrafo Ricardo Chvaicer e o motorista Luiz Antônio da Silva Coelho, em duas oportunidades, ouviram o capitão Jair Bolsonaro contar à repórter Cássia Maria o plano de explodir bombas nos quartéis”.
O Jornal do Brasil, do dia 1.º de novembro de 1987, ecoando o caso, afirmou que o capitão Fábio Passos também teria mentido em suas declarações a seus superiores, porque a repórter de Veja, Cássia Maria, teria sido recebida por ele “duas vezes em casa chegando a lhe entregar um documento. Ela, em companhia do motorista da revista e de uma pessoa de confiança do capitão foi tirar Xerox do papel e voltou à casa para devolver o original ao militar”.
A aposta da revista Veja era criar um “beco sem saída” para o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, em relação à opinião pública, obrigando-o a assumir uma investigação contra os capitães Bolsonaro e Fábio.
Mas a revista também apostava naqueles que se contentam apenas em ver as figuras e ler os títulos. Observe que na ilustração anterior, cuja autoria foi atribuída pela reportagem ao capitão Jair Bolsonaro, é também colocada a foto ao lado, assim identificada: “Bolsonaro, a adutora de Guandu que abastece de água o Rio de Janeiro (também com foto montada pela revista) e seu croqui da bomba junto à tubulação: veemente, por escrito, do próprio punho”.
Para evitar possível consequência jurídica em torno da reportagem, a revista escreveu em outra página, que não a do croqui, talvez como possível álibi:
Veja não publicou este croqui em sua reportagem da semana passada porque Bolsonaro não deu a impressão de que estivesse realmente disposto a explodir o Guandu, e sim de que fazia uma exibição do mecanismo de funcionamento de um petardo – algo que não chega a ser notícia. Em todas as ocasiões que a repórter Cássia Maria ouviu referências às bombas da Operação Beco sem Saída, elas vieram acompanhadas da ressalva de que não se destinavam a ferir ninguém. Assim, o croqui de Bolsonaro, caso fosse publicado junto com a reportagem, resultaria em exagero.
Mas o estrago havia sido feito. E a revista ainda insistiu em que a publicação do croqui era para provar que o capitão Bolsonaro estivera com a repórter e que mentira ao dizer o contrário, além do ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves ter se precipitado em acreditar nele.
O serviço de inteligência do Exército, depois das devidas averiguações, não conseguiu detectar qualquer ação criminosa por parte de Bolsonaro. Entretanto, recomendou que o mesmo fosse submetido a um Conselho de Justificação:
16 nov. 87: documento – Considera que as averiguações realizadas não conseguiram elidir a dúvida que paira sobre a conduta do nominado, embora não existam elementos para a abertura de IPM (indícios de crime militar). Sugere a submissão do nominado a Conselho de Justificação. (Prontuário Confidencial)
A partir desta segunda reportagem, se sentindo acossado pela imprensa em nível nacional, o ministro do Exército determinou a submissão dos capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva a um Conselho de Justificação, conforme consta do Prontuário Confidencial do capitão Bolsonaro: “18 nov. 87: Telex – Informa que o senhor ministro do Exército determinou que o nominado seja submetido a Conselho de Justificação”, de acordo com a Lei n.º 5.836, de 5 de dezembro de 1972, conforme Artigo 1.º e outros, além do Código de Processo Penal Militar.
Art. 1.º - O Conselho de Justificação é destinado a julgar, através de processo especial, da incapacidade do oficial das Forças Armadas - militar de carreira - para permanecer na ativa, criando-lhe, ao mesmo tempo, condição para se justificar.
(Continua amanhã) 



Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (3)

Há muito tempo deixei de idolatrar qualquer coisa ou pessoa, parei de acreditar na política corrupta, não permito que me comprem a preço algum, jamais permitirei que me manipulem, pois eu tenho a capacidade de saber e distinguir tudo aquilo que me agrada ou não.
Rosângela Aparecida Ribeiro
Jair Bolsonaro em seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados em Brasília
E continua a reportagem de Veja:

- Segundo o capitão, ele e Cruz falam-se frequentemente ao telefone e o capitão espera que o general promova um encontro com Figueiredo, talvez no próximo mês. O Plano Beco sem Saída foi confirmado também por um oficial, que não integra a EsAO.
Ainda segundo a repórter, a Operação Beco sem Saída teria sido confirmada por outro oficial que não pertencia aos quadros da EsAO, sem citar seu nome.
Vamos ao fechamento da reportagem de Veja:
- Na quinta-feira, num contato telefônico com Bolsonaro, perguntei se o anúncio do presidente cancelava a operação Beco sem Saída. ‘O pessoal está pensando em esperar até novembro para ver o que acontece’, explicou o capitão. ‘Mas se esperarem muito acabará não fazendo nada’. Nesse telefonema, Bolsonaro esclareceu: ‘Eu estou fora disso’.
E reafirmou: ‘São apenas algumas espoletas. Não íamos fazer isto correndo o risco de perder uma parte de nossos corpos’.
- Sobre o capitão Luiz Fernando Walter de Almeida, que tomou a Prefeitura de Apucarana, Bolsonaro contou ter estudado com ele. ‘A tropa que o acompanhou no protesto não é ingênua’. ‘Eles sabiam onde estavam indo’. Nervoso, Bolsonaro advertiu-me, mais uma vez, para não publicar nada sobre a nossas conversas. ‘Você sabe em que terreno está entrando, não sabe?”. Teria perguntado Bolsonaro, segundo Cássia Maria. E ela afirma na reportagem ter respondido: “Você não pode esquecer que eu sou uma profissional".
A justificativa dada por Veja para a divulgação da reportagem era que, mesmo tendo um acordo de sigilo com as fontes, não poderia deixar aquilo encoberto pela gravidade dos fatos.
A pendenga envolvendo os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva (Xerife) teria continuidade, tanto nos meios militares e jurídicos, quanto na imprensa, já que o Jornal do Brasil, que havia contratado a demitida repórter de Veja, Cássia Maria, dava continuidade à cobertura do caso.
Entretanto, o que, de fato motivou o pedido de condenação de Jair Bolsonaro pelo Conselho de Justificação – não aceito pelo STM -, foi explicado em entrevista dada pelo capitão-vereador em ampla reportagem do Jornal do Commércio, publicada no dia 5 de agosto de 1990:

- Eu enfrentei um processo por oito meses e um Conselho que o ministro Leônidas escolheu. Aliás, uma coisa que eu pretendo é que as indicações para os Conselhos [de Justificação] sejam feitos por sorteio e não por escolha. Aquele grupo, no meu entender, recebeu a missão de me colocar para fora. Eu era discriminado por todos e sofria muito. Alguns colegas se afastaram por medo, já que a vigilância sobre mim era constante.
Um dia depois de iniciar a circulação de Veja com a denúncia da intitulada “Operação Beco sem Saída”, o Centro de Comunicação Social do Exército informou que a EsAO iria proceder à apuração das denúncias da revista.
Assim, os capitães Jair Bolsonaro e Fábio Passos foram ouvidos no Comando Militar do Leste, que descartaria, posteriormente, em nota oficial, levar em consideração a reportagem divulgada pela revista.

26 out. 87: Telex – Ao tomar conhecimento da reportagem da revista “Veja” n.º 999, de 28 de outubro de 87, nas páginas 40 e 41, o nominado declarou ao coronel Adilson Garcia do Amaral, eu considerava uma fantasia a matéria publicada. O referido oficial declara que conhece a repórter Cássia, tendo-a visto algumas vezes na Vila Militar/RJ, sendo por ela abordado somente uma vez, ocasião em que orientou que a mesma procurasse o general comandante da EsAO e o entrevistasse a respeito dos oficiais. Nega qualquer participação em reunião na casa do capitão Fábio com a repórter Cássia. Acredita que o real objetivo da matéria publicada, seja de procurar vender a revista “doa a quem doer”. Desconhece qualquer grupo de movimento por aumento salarial, supostamente existente na escola. (Fonte: Relatório Confidencial do Exército)
O tenente-coronel-oficial de Relações Públicas do Comando Militar do Leste, Luiz Cesário da Silveira Filho, fez distribuir à imprensa, às 20h30, no 8.º andar do prédio do antigo Ministério da Guerra, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro uma nota que tinha um tom taxativo:
s
Sem dúvida alguma, notícias desse teor servem para intranquilizar a opinião pública e procuram retratar um quadro que, absolutamente inexiste no âmbito do Comando Militar do Leste, que se encontra voltado para suas atividades profissionais e ao exato cumprimento de seus deveres constitucionais.
A nota afirmava ainda que no sábado, dia 24, quando a revista ainda circulava apenas entre assinantes, os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva haviam sido chamados pelo subcomandante da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para prestarem declarações sobre o que teriam dado à repórter daquela revista, Cássia Maria, completando a informação com os depoimentos dos capitães Fábio...
- A repórter afirma que esteve em minha residência, situada à Avenida Duque de Caxias, 865, apto 101, e que esteve circulando em um dos quartos. Nego, veementemente, o teor da reportagem, bem como nego que a conheço pessoalmente. Afirmo que a mesma nunca esteve em minha residência. Considero tal reportagem e as declarações nela contidas como obra de ficção, declarou o capitão Fábio Passos da Silva.
...e Bolsonaro:
- Ao tomar conhecimento da referida reportagem e após ler a matéria acima respondo o seguinte: considero uma fantasia o publicado. Já vi a repórter Cássia algumas vezes na Vila Militar, sendo que uma vez abordado por ela, mandei que procurasse o general comandante da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para providências, ou melhor, entrevistá-lo a respeito dos oficiais. Nego ter recebido ou participado de reunião na casa do capitão Fábio com a repórter Cássia, foi categórico o capitão Jair Bolsonaro.
Entretanto, a nota só trazia trechos do que os oficiais afirmaram e a omissão da declaração completa serviu de pretexto para que Veja voltasse ao assunto em sua edição posterior, com a desculpa de que Bolsonaro teria mentido ao dizer que não havia estado com a repórter Cássia Maria.

Como dissera o chefe da Sucursal do Rio de Janeiro de Veja, o jornalista Alessandro Porro, a revista não retirava nem uma vírgula do que havia publicado e que, na próxima edição daria resposta à nota da EsAO.