segunda-feira, 20 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro

A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa.
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Millôr Fernandes [1923-2012] desenhista, humorista, escritor, poeta
Croqui publicado pela Veja como de autoria do capitão Jair Messias Bolsonaro que pretendia lançar bombas em quartéis e explodir a Adutora do Guandu que abastece de água a Cidade do Rio de Janeiro. O propósito seria forçar o governo a conceder aumento salarial para os militares, o que lhe rendeu 15 dias de prisão e um processo na Justiça Militar.
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No dia 24 de outubro de 1987, a revista Veja começava a circular, ainda entre assinantes, com uma matéria da repórter Cássia Maria Rodrigues intitulada “Pôr bombas nos quartéis, um plano da Esao”, em que ela afirmava ter tomado conhecimento de que um grupo de oficiais da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) explodiria bombas – um plano chamado de “Beco sem Saída” -, em diversas Unidades da Vila Militar, no Rio de Janeiro, caso o aumento salarial dos militares fosse inferior a 60%.
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Segundo a repórter, a revelação deste plano teria sido feita pelo capitão Jair Bolsonaro e por outro oficial a quem ela chamou pelo codinome “Xerife”, mas que depois se ficou sabendo tratar-se do capitão Fábio Passos da Silva, conhecido pelos companheiros como xerife, por ser o mais velho do grupo e por agir também como uma espécie de conselheiro.
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É uma história confusa e, de certa forma, um tanto nebulosa e até mesmo o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, que supostamente teria sido atacado pelo capitão Jair Bolsonaro, disse à imprensa, dois dias depois de Veja divulgar o fato, que não acreditava nessa história de bombas e acusou a revista de fraudar os fatos para criar a reportagem.
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- Os dois oficiais envolvidos negaram, peremptoriamente, de maneira mais veemente, por escrito, do próprio punho, qualquer veracidade daquela informação. Quando alguém desmente – peremptoriamente -, e é um membro da minha instituição e assina embaixo, em quem vou acreditar? Nesse que é componente da minha instituição – eu sei quem é minha gente, concluiu o ministro do Exército, dando a discussão com a imprensa por encerrado.
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Interessante neste episódio envolvendo o capitão Bolsonaro é que, apesar de Veja continuar mantendo acesa a discussão sobre a história das bombas, demitiu a repórter Cássia Maria, que a partir de 11 de janeiro de 1988 passaria a integrar a Sucursal de Brasília, do Jornal do Brasil que pegou carona no que a revista continuava a publicar, tentando tornar verídica uma pseudofraude, de acordo com acusação do ministro do Exército.
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Mas é importante conhecer o que a Veja publicou na referida reportagem para entender melhor porque, afinal de contas, os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva, depois de submetidos a longo e desgastante processo disciplinar, foram absolvidos, por maioria de votos, pelos ministros do Superior Tribunal Militar (STM), em julgamento ocorrido em 1988.
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Eis o relato inicial da repórter Cássia Maria Rodrigues:
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- Fui recebida no apartamento 101 do prédio n.º 865 da Avenida Duque de Caxias, por Lígia, mulher do capitão que se identificou apenas como ‘Xerife’. Ele chegou poucos minutos depois, perto das 5 horas da tarde, contou que sua participação no grupo de oficiais da EsAO que lidera o movimento por aumento estava sendo investigada pelo serviço de informações do Exército e que logo eu teria novidades sobre o assunto.
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Apenas por este primeiro parágrafo já dá para perceber que a construção da reportagem parece ter sido algo feito sem os cuidados profissionais mínimos. A repórter diz que foi recebida em um determinado apartamento da Vila Militar por uma mulher que ela somente sabia o primeiro nome e por um militar que ela conhecia apenas pelo apelido.
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Depois entra em cena o capitão Jair Bolsonaro.
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- Pouco mais tarde, chegou o capitão Jair Messias Bolsonaro que, em setembro do ano passado, assinou um artigo protestando contra os baixos salários dos militares em Veja. Na ocasião, ele acabou preso por 15 dias e houve uma onda de protestos de mulheres de oficiais contra sua punição.
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“São uns canalhas”, teria afirmado Bolsonaro, ao comentar a prisão havida naquele dia do capitão Sadon Pereira Filho. “Terminaram as aulas de hoje mais cedo para que a maioria dos alunos estivesse fora da escola na hora de prenderem nosso companheiro”.
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Em seguida, Bolsonaro contou, segundo a revista, que os alunos da EsAO, onde estudavam 350 capitães, planejavam ficar nos quartéis durante os dois dias da prisão do capitão Sadon, em protesto.
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Atente que no caso de Bolsonaro, a repórter justificou conhecê-lo pelo nome completo, porque o mesmo havia assinado, pouco mais de um ano antes, um artigo na revista Veja e já entra - com uma fala atribuída ao capitão Jair Bolsonaro -, em flagrante tentativa de indispô-lo contra o comando da EsAO, pois, com certeza, se, de fato, houve esta fala “São uns canalhas”, o capitão Jair Bolsonaro não iria querer que fosse reproduzida, mesmo porque, a própria revista afirmava que a conversa era em caráter sigiloso.


Fonte: "Jair Messias Bolsonaro: da Caserna ao Palácio do Planalto". Autor: Bernardino Coelho da Silva. Editora Amazon. 2020)
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Continua a reportagem de Veja (amanhã)

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