A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa.q
Millôr Fernandes [1923-2012] desenhista, humorista,
escritor, poeta
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No dia 24 de outubro de 1987, a revista Veja começava a circular, ainda entre assinantes, com uma matéria da repórter Cássia Maria Rodrigues intitulada “Pôr bombas nos quartéis, um plano da Esao”, em que ela afirmava ter tomado conhecimento de que um grupo de oficiais da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) explodiria bombas – um plano chamado de “Beco sem Saída” -, em diversas Unidades da Vila Militar, no Rio de Janeiro, caso o aumento salarial dos militares fosse inferior a 60%.
No dia 24 de outubro de 1987, a revista Veja começava a circular, ainda entre assinantes, com uma matéria da repórter Cássia Maria Rodrigues intitulada “Pôr bombas nos quartéis, um plano da Esao”, em que ela afirmava ter tomado conhecimento de que um grupo de oficiais da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) explodiria bombas – um plano chamado de “Beco sem Saída” -, em diversas Unidades da Vila Militar, no Rio de Janeiro, caso o aumento salarial dos militares fosse inferior a 60%.
s
Segundo
a repórter, a revelação deste plano teria sido feita pelo capitão Jair
Bolsonaro e por outro oficial a quem ela chamou pelo codinome “Xerife”, mas que
depois se ficou sabendo tratar-se do capitão Fábio Passos da Silva, conhecido
pelos companheiros como xerife, por ser o mais velho do grupo e por agir também
como uma espécie de conselheiro.
s
É uma
história confusa e, de certa forma, um tanto nebulosa e até mesmo o ministro do
Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, que supostamente teria sido atacado
pelo capitão Jair Bolsonaro, disse à imprensa, dois dias depois de Veja divulgar o fato, que não acreditava
nessa história de bombas e acusou a revista de fraudar os fatos para criar a
reportagem.
s
- Os
dois oficiais envolvidos negaram, peremptoriamente, de maneira mais veemente,
por escrito, do próprio punho, qualquer veracidade daquela informação. Quando
alguém desmente – peremptoriamente -, e é um membro da minha instituição e
assina embaixo, em quem vou acreditar? Nesse que é componente da minha
instituição – eu sei quem é minha gente, concluiu o ministro do Exército, dando
a discussão com a imprensa por encerrado.
s
Interessante
neste episódio envolvendo o capitão Bolsonaro é que, apesar de Veja continuar mantendo acesa a
discussão sobre a história das bombas, demitiu a repórter Cássia Maria, que a
partir de 11 de janeiro de 1988 passaria a integrar a Sucursal de Brasília, do
Jornal do Brasil que pegou carona no que a revista continuava a publicar,
tentando tornar verídica uma pseudofraude, de acordo com acusação do ministro
do Exército.
s
Mas é
importante conhecer o que a Veja
publicou na referida reportagem para entender melhor porque, afinal de contas,
os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva, depois de
submetidos a longo e desgastante processo disciplinar, foram absolvidos, por
maioria de votos, pelos ministros do Superior Tribunal Militar (STM), em
julgamento ocorrido em 1988.
s
Eis o
relato inicial da repórter Cássia Maria Rodrigues:
s
- Fui
recebida no apartamento 101 do prédio n.º 865 da Avenida Duque de Caxias, por
Lígia, mulher do capitão que se identificou apenas como ‘Xerife’. Ele chegou
poucos minutos depois, perto das 5 horas da tarde, contou que sua participação
no grupo de oficiais da EsAO que lidera o movimento por aumento estava sendo
investigada pelo serviço de informações do Exército e que logo eu teria
novidades sobre o assunto.
s
Apenas
por este primeiro parágrafo já dá para perceber que a construção da reportagem
parece ter sido algo feito sem os cuidados profissionais mínimos. A repórter
diz que foi recebida em um determinado apartamento da Vila Militar por uma
mulher que ela somente sabia o primeiro nome e por um militar que ela conhecia
apenas pelo apelido.
s
Depois
entra em cena o capitão Jair Bolsonaro.
s
-
Pouco mais tarde, chegou o capitão Jair Messias Bolsonaro que, em setembro do
ano passado, assinou um artigo protestando contra os baixos salários dos
militares em Veja. Na ocasião, ele
acabou preso por 15 dias e houve uma onda de protestos de mulheres de oficiais
contra sua punição.
s
“São
uns canalhas”, teria afirmado Bolsonaro, ao comentar a prisão havida naquele
dia do capitão Sadon Pereira Filho. “Terminaram as aulas de hoje mais cedo para
que a maioria dos alunos estivesse fora da escola na hora de prenderem nosso
companheiro”.
s
Em
seguida, Bolsonaro contou, segundo a revista, que os alunos da EsAO, onde
estudavam 350 capitães, planejavam ficar nos quartéis durante os dois dias da
prisão do capitão Sadon, em protesto.
s
Atente
que no caso de Bolsonaro, a repórter justificou conhecê-lo pelo nome completo,
porque o mesmo havia assinado, pouco mais de um ano antes, um artigo na revista
Veja e já entra - com uma fala atribuída ao capitão Jair Bolsonaro -, em
flagrante tentativa de indispô-lo contra o comando da EsAO, pois, com certeza,
se, de fato, houve esta fala “São uns canalhas”, o capitão Jair Bolsonaro não
iria querer que fosse reproduzida, mesmo porque, a própria revista afirmava que
a conversa era em caráter sigiloso.
Fonte: "Jair Messias Bolsonaro: da Caserna ao Palácio do Planalto". Autor: Bernardino Coelho da Silva. Editora Amazon. 2020)
s
Continua
a reportagem de Veja (amanhã)


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