quarta-feira, 22 de julho de 2020

Operação Beco Sem Saída: triste capítulo da história do Exército Brasileiro protagonizado por Jair Bolsonaro (3)

Há muito tempo deixei de idolatrar qualquer coisa ou pessoa, parei de acreditar na política corrupta, não permito que me comprem a preço algum, jamais permitirei que me manipulem, pois eu tenho a capacidade de saber e distinguir tudo aquilo que me agrada ou não.
Rosângela Aparecida Ribeiro
Jair Bolsonaro em seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados em Brasília
E continua a reportagem de Veja:

- Segundo o capitão, ele e Cruz falam-se frequentemente ao telefone e o capitão espera que o general promova um encontro com Figueiredo, talvez no próximo mês. O Plano Beco sem Saída foi confirmado também por um oficial, que não integra a EsAO.
Ainda segundo a repórter, a Operação Beco sem Saída teria sido confirmada por outro oficial que não pertencia aos quadros da EsAO, sem citar seu nome.
Vamos ao fechamento da reportagem de Veja:
- Na quinta-feira, num contato telefônico com Bolsonaro, perguntei se o anúncio do presidente cancelava a operação Beco sem Saída. ‘O pessoal está pensando em esperar até novembro para ver o que acontece’, explicou o capitão. ‘Mas se esperarem muito acabará não fazendo nada’. Nesse telefonema, Bolsonaro esclareceu: ‘Eu estou fora disso’.
E reafirmou: ‘São apenas algumas espoletas. Não íamos fazer isto correndo o risco de perder uma parte de nossos corpos’.
- Sobre o capitão Luiz Fernando Walter de Almeida, que tomou a Prefeitura de Apucarana, Bolsonaro contou ter estudado com ele. ‘A tropa que o acompanhou no protesto não é ingênua’. ‘Eles sabiam onde estavam indo’. Nervoso, Bolsonaro advertiu-me, mais uma vez, para não publicar nada sobre a nossas conversas. ‘Você sabe em que terreno está entrando, não sabe?”. Teria perguntado Bolsonaro, segundo Cássia Maria. E ela afirma na reportagem ter respondido: “Você não pode esquecer que eu sou uma profissional".
A justificativa dada por Veja para a divulgação da reportagem era que, mesmo tendo um acordo de sigilo com as fontes, não poderia deixar aquilo encoberto pela gravidade dos fatos.
A pendenga envolvendo os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva (Xerife) teria continuidade, tanto nos meios militares e jurídicos, quanto na imprensa, já que o Jornal do Brasil, que havia contratado a demitida repórter de Veja, Cássia Maria, dava continuidade à cobertura do caso.
Entretanto, o que, de fato motivou o pedido de condenação de Jair Bolsonaro pelo Conselho de Justificação – não aceito pelo STM -, foi explicado em entrevista dada pelo capitão-vereador em ampla reportagem do Jornal do Commércio, publicada no dia 5 de agosto de 1990:

- Eu enfrentei um processo por oito meses e um Conselho que o ministro Leônidas escolheu. Aliás, uma coisa que eu pretendo é que as indicações para os Conselhos [de Justificação] sejam feitos por sorteio e não por escolha. Aquele grupo, no meu entender, recebeu a missão de me colocar para fora. Eu era discriminado por todos e sofria muito. Alguns colegas se afastaram por medo, já que a vigilância sobre mim era constante.
Um dia depois de iniciar a circulação de Veja com a denúncia da intitulada “Operação Beco sem Saída”, o Centro de Comunicação Social do Exército informou que a EsAO iria proceder à apuração das denúncias da revista.
Assim, os capitães Jair Bolsonaro e Fábio Passos foram ouvidos no Comando Militar do Leste, que descartaria, posteriormente, em nota oficial, levar em consideração a reportagem divulgada pela revista.

26 out. 87: Telex – Ao tomar conhecimento da reportagem da revista “Veja” n.º 999, de 28 de outubro de 87, nas páginas 40 e 41, o nominado declarou ao coronel Adilson Garcia do Amaral, eu considerava uma fantasia a matéria publicada. O referido oficial declara que conhece a repórter Cássia, tendo-a visto algumas vezes na Vila Militar/RJ, sendo por ela abordado somente uma vez, ocasião em que orientou que a mesma procurasse o general comandante da EsAO e o entrevistasse a respeito dos oficiais. Nega qualquer participação em reunião na casa do capitão Fábio com a repórter Cássia. Acredita que o real objetivo da matéria publicada, seja de procurar vender a revista “doa a quem doer”. Desconhece qualquer grupo de movimento por aumento salarial, supostamente existente na escola. (Fonte: Relatório Confidencial do Exército)
O tenente-coronel-oficial de Relações Públicas do Comando Militar do Leste, Luiz Cesário da Silveira Filho, fez distribuir à imprensa, às 20h30, no 8.º andar do prédio do antigo Ministério da Guerra, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro uma nota que tinha um tom taxativo:
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Sem dúvida alguma, notícias desse teor servem para intranquilizar a opinião pública e procuram retratar um quadro que, absolutamente inexiste no âmbito do Comando Militar do Leste, que se encontra voltado para suas atividades profissionais e ao exato cumprimento de seus deveres constitucionais.
A nota afirmava ainda que no sábado, dia 24, quando a revista ainda circulava apenas entre assinantes, os capitães Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva haviam sido chamados pelo subcomandante da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para prestarem declarações sobre o que teriam dado à repórter daquela revista, Cássia Maria, completando a informação com os depoimentos dos capitães Fábio...
- A repórter afirma que esteve em minha residência, situada à Avenida Duque de Caxias, 865, apto 101, e que esteve circulando em um dos quartos. Nego, veementemente, o teor da reportagem, bem como nego que a conheço pessoalmente. Afirmo que a mesma nunca esteve em minha residência. Considero tal reportagem e as declarações nela contidas como obra de ficção, declarou o capitão Fábio Passos da Silva.
...e Bolsonaro:
- Ao tomar conhecimento da referida reportagem e após ler a matéria acima respondo o seguinte: considero uma fantasia o publicado. Já vi a repórter Cássia algumas vezes na Vila Militar, sendo que uma vez abordado por ela, mandei que procurasse o general comandante da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para providências, ou melhor, entrevistá-lo a respeito dos oficiais. Nego ter recebido ou participado de reunião na casa do capitão Fábio com a repórter Cássia, foi categórico o capitão Jair Bolsonaro.
Entretanto, a nota só trazia trechos do que os oficiais afirmaram e a omissão da declaração completa serviu de pretexto para que Veja voltasse ao assunto em sua edição posterior, com a desculpa de que Bolsonaro teria mentido ao dizer que não havia estado com a repórter Cássia Maria.

Como dissera o chefe da Sucursal do Rio de Janeiro de Veja, o jornalista Alessandro Porro, a revista não retirava nem uma vírgula do que havia publicado e que, na próxima edição daria resposta à nota da EsAO.


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