Não se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por qualquer dos lados.
(Provérbio judeu)
Em 23 de novembro de 1968, o recifense e brilhante cronista de costumes, Nelson Falcão Rodrigues [1912-1980], considerado o maior influenciador de sua época, escreveu para o jornal O Globo, a crônica "O óbvio ululante e a ascensão dos idiotas", e que depois foi incluída em seu livro "O Reacionário".
Nela, Nelson Rodrigues parece - com alguma ajudazinha da inspiração cotidiana - estar falando de dias atuais, como num Dèjá Vu da idiotice nacional, quando se vê tantos circulando livremente pelas redes sociais em debates anacrônicos e despidos de toda sorte de inteligência, e outros de seus iguais, tomando posse em cargos executivos ou legislativos de destaque nacional.
O cronista divide o mundo entre os "idiotas" e os "melhores", estes, entretanto, não podem ser confundidos com o sentido do que se convencionou chamar, nos dias atuais, de "cidadão de bem", porque qualquer idiota da atualidade se acha identificado com o termo genérico "de bem" que, em grande parte dos casos, somente serve para discriminar aqueles que pensam diferente, não importando de que lado do espectro ideológico, este esteja, como avalia o professor da PUC-SP. Dr. Egon Rangel:
"Separam-se os campos do 'eu-nós' e dos 'outros' como dois campos opostos, do bem e do mal; definem-se as características positivas do primeiro por oposição às negativas do segundo, sem, contudo, especificar no que consiste o bem a que a expressão se refere; não se diz quem está de um lado e quem está do outro."
O historiador Leandro Karnal, em palestra proferida em maio de 2020, também falou sobre o tal do "cidadão de bem":
"A 'pessoa de bem' é a pior invenção da espécie humana. Em primeiro lugar, porque ela é arrogante, ela não pertence à humanidade. Ela aponta o dedo, cumpre aquele papel que Jesus denuncia nos fariseus: olham um cisco no olho do outro, mas não olham uma trave que está no seu".
Mas, voltando à crônica de Nelson Rodrigues, ele afirma que "no passado, eram os 'melhores' que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos etc. etc.", em contraponto ao que viria a ocorrer décadas depois. E ele continua: "Perguntará alguém: “E que faziam os idiotas?" E o próprio Nelson Rodrigues responde ironicamente: "fazia filhos".
Nelson Rodrigues, em relação a idiotas e "os melhores", afirma que os primeiros "na rua, passavam rente às paredes, gaguejante de humildade. Sabiam-se idiotas e estavam cientes da própria inépcia". Já "os melhores" eram os que "sentiam, pensavam, e só eles tinham as grandes esposas, as lindas amantes e os mais belos interiores para a Manchete fotografar".
Mas o clímax da crônica de costumes de Nelson Rodrigues vem agora:
E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta [e procriação], o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Multidões, jamais concebidas, começaram a rosnar. Eram eles, os idiotas. Os "melhores" se juntaram em pequenas minorias, acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, passou a esbravejar; ele, que apenas fazia filhos, deu para pensar. Mas, pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é cientista, sociólogo, romancista, cineasta, dramaturgo, prêmio Nobel, sacerdote. Aprende, sabe, ensina.
Em nossa época, ninguém faz nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou o herói, tem de fingir-se idiota. O próprio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos exigem a liderança de outro cretino.
Nelson Rodrigues conclui sua crônica como se profetizando os dias atuais, quando afirma que a "inteligência" - ou quem deveria assim se apresentar -, não mais pensa e dá um exemplo de uma foto da Revolução Francesa em que Jean-Paul Sartre é flagrado ao lado de grevistas [os que protestavam contra o regime]. "Estava ali fingindo-se de idiota, para sobreviver".
Esta mesma imagem, infelizmente, temos visto com hedionda frequência pelas bandas do Palácio do Planalto, em Brasília, embora a figura de destaque esteja mais para um idiota de plantão, do que alguém provido da inteligência que o cargo ocupado exige. Talvez, devesse Nelson Rodrigues, se vivo estivesse, revisar a frase de sua crônica destacada em negrito acima e reescrevê-la: "Hoje, os idiotas exigem a liderança de outro idiota".



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