A sabedoria e a ignorância se transmitem como doenças; daí a necessidade de se saber escolher as companhias.William Shakespeare [1564-1616] dramaturgo e escritor inglês
(...) Continua a reportagem de Veja:
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- Nesse momento, a campainha tocou novamente. Fui levada para um dos quartos, por Lígia, para que não visse o oficial que acabava de chegar. Nos poucos minutos que ficamos ali, Lígia revelou-me alguns detalhes da Operação Beco sem Saída. O plano consistia num protesto à bomba contra o índice de aumento para os militares que o governo anunciaria nos próximos dias. Caso o reajuste ficasse abaixo de 60%,[1] algumas bombas seriam detonadas nos banheiros da Esao, sempre com a preocupação de que não houvesse feridos.
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E teria dito ainda Lígia: “Simultaneamente, haveria explosões na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e em outras Unidades do Exército”.
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- Não haverá perigo. Serão apenas explosões pequenas, para assustar o ministro. Só o suficiente para o presidente José Sarney entender que o general Leônidas não exerce nenhum controle sobre sua tropa, teria afirmado Lígia.
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- Lígia pediu-me que jurasse não comentar o assunto com Bolsonaro e Xerife.
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A reportagem de Veja dava continuidade ao assunto:
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- De volta à sala, depois que o terceiro oficial se retirou, o assunto girou em torno do ministro Leônidas Pires Gonçalves, do Exército. “Temos um ministro incompetente e até racista”, teria dito Bolsonaro a certa altura. ‘Ele disse, em Manaus, que os militares são a classe de vagabundos mais bem remunerada no País. Só concordamos em que ele está realmente criando vagabundos, pois hoje em dia o soldado fica um ano inteiro pintando de branco o meio-fio dos quartéis, esperando a visita dos generais ou fazendo faxina e dando plantão’. Perguntei então se pretendiam realizar alguma operação maior nos quartéis. “Só a explosão de algumas espoletas”, teria brincado Bolsonaro.
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Continua: Depois, sérios, confirmaram a operação que Lígia chamara de Beco sem Saída. “Falamos, falamos, e eles não resolveram nada’, disseram. ‘Agora o pessoal está pensando em explorar alguns pontos sensíveis”.
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Sem o menor constrangimento, o capitão Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio. O explosivo seria o trinitrotolueno, o TNT, a popular dinamite (sic). O plano dos oficiais foi feito para que não houvesse vítimas. A intenção era demonstrar a insatisfação com os salários e criar problema para o ministro Leônidas.
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De acordo com Bolsonaro, se algum dia o ministro do Exército resolvesse articular um novo golpe militar, ‘ele é que acabaria golpeado pela sua própria tropa, que se recusaria a obedecê-lo’. Nosso Exército é uma vergonha nacional, e o ministro está saindo como um segundo Pinochet’, teria afirmado Bolsonaro.
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No último parágrafo da reportagem de Cássia Maria, ela envolve o nome do ex-presidente João Baptista de Figueiredo.
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- Nossa conversa durou 2 horas. Nesse tempo, falamos também sobre os planos do ex-presidente João Figueiredo de candidatar-se à sucessão de Sarney. ‘Ele poderia contar com grande apoio’, disse Xerife. ‘Nós daríamos ao Figueiredo a oportunidade de terminar o que não conseguiu completar’, afirmou o militar, sem explicar a que obra do ex-presidente se referia. À contragosto, Bolsonaro contou também um pouco de suas relações formais com o general Newton Cruz, ex-chefe da Agência Central do SNI.
E continua a reportagem: (amanhã)
Fonte: "Jair Messias Bolsonaro: da Caserna ao Palácio do Planalto". Autor: Bernardino Coelho da Silva. Editora Amazon. 2020)
[1] A reportagem cita o
reajuste abaixo de 60% como sendo o estopim para o tal protesto com bombas.
Entretanto, no ano de 1987 os militares receberam reajustes em nove
oportunidades. Neste ano, a inflação acumulada no período de 12 meses ficou em
415,80% e os reajustes salariais totalizaram, considerando um sobre o outro,
116,00% nos cinco primeiros meses do ano e em 112,31% nos últimos sete meses do
ano.


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