Do mesmo papel em que lavrou a sentença contra um adúltero, o juiz rasgará um pedaço para nele escrever umas linhas amorosas à esposa de um colega.
Michel de Montaigne
O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de defensor e apoiador da Lava-Jato, passou a ser um de seus mais ferrenhos detratores, desde que os procuradores da Força Tarefa de Curitiba começaram a ser visto por ele como ameaça a seus políticos de estimação. Leia-se: políticos do PSDB, partido que o elevou ao cargo na Suprema Corte.
E isto aconteceu no início de setembro de 2016, quando o empresário Léo Pinheiro, da OAS, decidiu colaborar com as investigações, dentro do escopo da Delação Premiada, prevista na Lei nº 12.850:2013.
Em sua delação -
suspensa pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot, o empresário Léo Pinheiro,
ex-presidente da OAS, traria denúncias contra o senador tucano Aécio Neves, o
ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB-SP), conforme a revista Veja, que estampou
na capa a chamada para a matéria “A delação que Janot jogou no lixo”.
Veja um trecho da delação de Leo Pinheiro.
(...) Foi apresentado
a Aécio por Sergio Cabral, quando este ainda era governador estadual do Rio de
Janeiro, em 2001. Ainda em 2001, esteve com Aécio para contribuir para a
campanha de 2002 ao governo do Estado de Minas, na oportunidade em que foi
apresentado a Oswaldo Borges da Costa Filho (…). Assim, quando da licitação da
Cidade Administrativa de Minas Gerais, editada em 16/7/2007, o declarante
determinou que fosse realizado contato com Oswaldo Borges da Costa (…).
Gilmar Mendes chegou a dizer que os
procuradores que conduziam as investigações em Curitiba precisavam de freios, o
que foi de pronto, contestado pelo ministro Marco Aurélio de Mello, para quem
isto só caberia à PGR e não ao STF e aproveitou para fazer a defesa da força
tarefa da Lava Jato. “O Ministério Público vem atuando e reafirmo o que venho
dizendo: mil vezes o excesso do que a acomodação. E temos o Judiciário para
corrigir possíveis erros de procedimentos” afirmou o ministro, de acordo com o
Estadão.[1]
Mas, a questão não era somente o mero
vazamento da delação de Léo Pinheiro; o ministro Gilmar Mendes ficou irritado
também por causa da citação de seu colega de Corte, Dias Toffoli, na tal
delação vazada. E Dias Toffoli viraria capa da revista Veja do dia 24 de agosto de 2016 com o título “A Lava Jato chega ao
Judiciário”, que poderia ser um precedente perigoso para outros ministros,
inclusive ele, e teria que ser combatido a qualquer custo.
Gilmar
Mendes, acusado de crimes grosseiros por sabotar sistematicamente o combate à
corrupção, diz que a Lava Jato é uma “organização criminosa”. Acaba de ganhar o
apoio oficial do PCC, que acusa Sérgio Moro de não “dialogar” com o crime. PCC
e Gilmar têm a mesma bandeira.
O Jornal
da Cidade Online deu divulgaçãoa este post de J. R. Guzzo e complementou:
“De fato, a afirmação do magistrado beira a insanidade, o ridículo, a
mediocridade e a mais completa inversão de valores”.
Mas, não são apenas Lewandowski e
Mendes os inimigos da Lava Jato dentro do STF. O ministro Dias Toffoli,
ardoroso defensor petista dentro da Suprema Corte, no dia 12 de agosto de 2019,
fazendo uma palestra para banqueiros em São Paulo, sem citar a Lava Jato,
atacou a Operação, imputando a ela todas as mazelas brasileiras dos últimos
quatro anos:
- O Brasil ficou
travado em quatro anos num moralismo enfrentando questões de ordem e esquecendo
o progresso. Você nunca vai ter progresso se tiver que ter ordem como uma
premissa.
[1] AFFONSO, Júlia. COUTINHO, Mateus. MACEDO, Fausto. Estadão. Blog Fausto Macedo. Juízes afirmam que Gilmar Mendes age contra a Lava Jato. São Paulo, 2016. Disponível em: https:// politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/juizes-afirmam-que-gilmar-mendes-age-contra-a-lava-jato/. Acesso em: 30 ago. 2019.

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