quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Vingança de Gilmar Mendes [um prato que se come frio]

Do mesmo papel em que lavrou a sentença contra um adúltero, o juiz rasgará um pedaço para nele escrever umas linhas amorosas à esposa de um colega.

Michel de Montaigne

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de defensor e apoiador da Lava-Jato, passou a ser um de seus mais ferrenhos detratores, desde que os procuradores da Força Tarefa de Curitiba começaram a ser visto por ele como ameaça a seus políticos de estimação. Leia-se: políticos do PSDB, partido que o elevou ao cargo na Suprema Corte.

E isto aconteceu no início de setembro de 2016, quando o empresário Léo Pinheiro, da OAS, decidiu colaborar com as investigações, dentro do escopo da Delação Premiada, prevista na Lei nº 12.850:2013.

Em sua delação - suspensa pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot, o empresário Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, traria denúncias contra o senador tucano Aécio Neves, o ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB-SP), conforme a revista Veja, que estampou na capa a chamada para a matéria “A delação que Janot jogou no lixo”.

Veja um trecho da delação de Leo Pinheiro.

(...) Foi apresentado a Aécio por Sergio Cabral, quando este ainda era governador estadual do Rio de Janeiro, em 2001. Ainda em 2001, esteve com Aécio para contribuir para a campanha de 2002 ao governo do Estado de Minas, na oportunidade em que foi apresentado a Oswaldo Borges da Costa Filho (…). Assim, quando da licitação da Cidade Administrativa de Minas Gerais, editada em 16/7/2007, o declarante determinou que fosse realizado contato com Oswaldo Borges da Costa (…).

Gilmar Mendes chegou a dizer que os procuradores que conduziam as investigações em Curitiba precisavam de freios, o que foi de pronto, contestado pelo ministro Marco Aurélio de Mello, para quem isto só caberia à PGR e não ao STF e aproveitou para fazer a defesa da força tarefa da Lava Jato. “O Ministério Público vem atuando e reafirmo o que venho dizendo: mil vezes o excesso do que a acomodação. E temos o Judiciário para corrigir possíveis erros de procedimentos” afirmou o ministro, de acordo com o Estadão.[1]

Mas, a questão não era somente o mero vazamento da delação de Léo Pinheiro; o ministro Gilmar Mendes ficou irritado também por causa da citação de seu colega de Corte, Dias Toffoli, na tal delação vazada. E Dias Toffoli viraria capa da revista Veja do dia 24 de agosto de 2016 com o título “A Lava Jato chega ao Judiciário”, que poderia ser um precedente perigoso para outros ministros, inclusive ele, e teria que ser combatido a qualquer custo.


Este é apenas um fato de um longo dossiê que é o meu livro "Operação Lava Toga", onde detalho os muitos indícios de crimes atribuídos a Gilmar Mendes e outros ministros do STF. Lá fica explícita a luta empreendida por Gilmar Mendes contra a Operação Lava Jato, contra a prisão depois da condenação em Segunda Instância e contra a independência do Ministério Público Federal, do qual, Gilmar Mendes já foi parte, embora tenha sempre se colocado a serviço dos políticos e poderosos da República.

A PEC 05, que está para ser votada na Câmara dos Deputados e que caça a independência dos procuradores da República está sendo chamada ironicamente de PEC DO GILMAR, mas não para por aí. Os parlamentares que defendem tal indecência estão sendo orientados por Gilmar Mendes que, há muito, abandonou o compromisso que firmou em defender a Constituição e as Leis e preferiu defender a bandidagem.

Em sua página no Facebook, o jornalista José Roberto Guzzo publicou, no dia 9 de agosto de 2019, o seguinte comentário depois que o ministro Gilmar Mendes deu uma entrevista atacando a força tarefa da Lava Jato e a chamando de “organização criminosa”:

Gilmar Mendes, acusado de crimes grosseiros por sabotar sistematicamente o combate à corrupção, diz que a Lava Jato é uma “organização criminosa”. Acaba de ganhar o apoio oficial do PCC, que acusa Sérgio Moro de não “dialogar” com o crime. PCC e Gilmar têm a mesma bandeira.

O Jornal da Cidade Online deu divulgaçãoa este post de J. R. Guzzo e complementou: “De fato, a afirmação do magistrado beira a insanidade, o ridículo, a mediocridade e a mais completa inversão de valores”.

Mas, não são apenas Lewandowski e Mendes os inimigos da Lava Jato dentro do STF. O ministro Dias Toffoli, ardoroso defensor petista dentro da Suprema Corte, no dia 12 de agosto de 2019, fazendo uma palestra para banqueiros em São Paulo, sem citar a Lava Jato, atacou a Operação, imputando a ela todas as mazelas brasileiras dos últimos quatro anos:

- O Brasil ficou travado em quatro anos num moralismo enfrentando questões de ordem e esquecendo o progresso. Você nunca vai ter progresso se tiver que ter ordem como uma premissa.




[1] AFFONSO, Júlia. COUTINHO, Mateus. MACEDO, Fausto. Estadão. Blog Fausto Macedo. Juízes afirmam que Gilmar Mendes age contra a Lava Jato. São Paulo, 2016. Disponível em:  https:// politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/juizes-afirmam-que-gilmar-mendes-age-contra-a-lava-jato/. Acesso em: 30 ago. 2019.

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