A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade deprava-o e torna-o miserável.
Jean-Jacques Rousseau
Crédito da reportagem: André Borges (Terra/Meio Ambiente)
Mudanças abrem espaço para especulação imobiliária nas praias e ocupação de mangues para produção de camarão.
O Ministério do Meio Ambiente está prestes a
derrubar um conjunto de resoluções que hoje delimitam as áreas de proteção permanente (APPs) de
manguezais e de restingas do litoral brasileiro. A revogação dessas regras abre
espaço para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias e ocupação de áreas de mangues para produção
de camarão.
Os temas estão na pauta da reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é
presidido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Esse conselho, que
tem papel fundamental na definição de normas e critérios da área ambiental,
teve a sua estrutura modificada por Salles em junho do ano passado e, com isso,
o poder de decisão do colegiado ficou nas mãos do governo federal.
Na reunião do Conama
desta segunda-feira, 28, o governo pretende revogar duas resoluções (302 e 303,
de 2002) que, hoje, são os instrumentos de proteção dos mangues e das
restingas, as faixas com vegetação comumente encontradas sobre áreas de dunas,
em praias do Nordeste.
O argumento do governo é
que essas resoluções foram abarcadas por leis que vieram depois, como o Código
Florestal. Especialistas em meio ambiente afirmam, porém, que até hoje essas resoluções
são aplicadas, porque são os únicos instrumentos legais que protegem,
efetivamente, essas áreas.
"Não há nenhuma
outra norma brasileira que confirma proteção às restingas como essas resoluções
do Conama, que continuam a definir limites até hoje. A realidade é que há um
grande lobby de resorts e criadores de camarão do Nordeste, que querem entrar
nessas áreas", diz Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).
Em agosto, por exemplo,
em São Paulo, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) perdeu uma
ação na Justiça e foi obrigada, por meio de sentença, a respeitar as
delimitações previstas na resolução de 2002, "para evitar a ocorrência de
dano irreparável à coletividade e ao meio ambiente".
Outra resolução que está
na pauta do Conama (284/2001) acaba com os critérios de regras federais para
licenciamento ambiental de empreendimentos de irrigação. No entendimento dos
ambientalistas, a revogação tem o objetivo de acabar com exigências legais a
pedido de parte do agronegócio.
A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) defende
o fim da resolução, sob o argumento de "não haver embasamento
técnico/legal da promulgação desta resolução, pois a irrigação não é um
estabelecimento ou atividade, mas apenas uma tecnologia utilizada pela
agricultura para o fornecimento de água para as plantas em quantidade
suficiente e no momento certo".
A pauta do Conama desta
segunda-feira inclui ainda a proposta de uma nova resolução que trata de
critérios de incineração de resíduos em fornos de produção de cimento, para
liberar a queima de resíduos de agrotóxicos. Hoje esse material passa por um
processo detalhado de tratamento e destinação. A nova resolução, porém, passa a
permitir que tudo seja incinerado. Há preocupação, porém, com o material
lançado na atmosfera após essa queima.
"Tudo foi pautado
em regime de urgência. Qual é a urgência de tomar decisões tão importantes em
tão pouco tempo e sem que esses temas sejam submetidos a estudos, por meio de
câmaras técnicas? Todas essas resoluções mereceriam uma discussão
aprofundada", afirma Carlos Bocuhy, presidente do Proam.
O ministro Ricardo
Salles foi procurado pelo Estadão e,
questionado sobre o assunto, afirmou que "as pautas do Conama serão
debatidas e todos os conselheiros terão a oportunidade de expor suas
posições".
Para a ex-presidente do
Ibama Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, trata-se de decisões graves, que
poderão fragilizar profundamente a proteção ambiental.
"O desmonte
promovido pelo governo Bolsonaro na política ambiental atingiu duramente o
Conama, que infelizmente parece estar reduzido a uma esfera de flexibilização
de normas, de passar a boiada. A pauta dessa reunião é evidência forte nesse
sentido: revogação de resoluções que dispõem áreas de preservação permanente e
sobre licenciamento da irrigação, sem o debate público prévio que marcava os
processos do Conselho", diz Suely.
A especialista chama
atenção ainda para a proposta de aprovar uma resolução que dá abertura para
flexibilizar a concentração de poluentes orgânicos por meio de incineração.
"Isso é totalmente inaceitável, chega a ser assustador."
Órgão passou por mudanças e perdeu representantes de Estados e
entidades civis em julho
O Conama - que é um
órgão consultivo com poder de definir normas e critérios na área ambiental -
foi desidratado em julho do ano passado em relação à sua estrutura anterior,
concentrando nas mãos do governo federal e de representantes do setor produtivo
a maioria dos votos. Estados e entidades civis perderam representação. Por
decisão de Salles, o Conama teve seus membros reduzidos de 96 para 23
representantes.
A composição anterior do
órgão tinha o objetivo de dar maior representatividade a vários segmentos da
sociedade. Uma parte dos integrantes da sociedade era escolhida por indicação e
outra, por eleição. Desde o ano passado, porém, essa escolha passou a ser feita
por sorteio.
Instituições que
representam a sociedade civil, incluindo associações de trabalhadores rurais e
povos indígenas, viram suas posições caírem de 23 para 4. Os Estados também
perderam representação. Se antes havia uma cadeira para cada um dos 26 Estados
e o Distrito Federal, agora são 5 cadeiras representadas por um Estado de cada
região geográfica do País. Os municípios, que tinham 8 representantes, agora
têm 2.

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