segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Os discursos infames de um boiadeiro

Se me chamam boiadeiro, boiadeiro eu não sou. Eu sou tocador de boi. Boiadeiro é o meu patrão.

(Primeira estrofe da música "Tocador de Boi" composta por Braúna e cantada por Sérgio Reis) 

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Que o deputado Jair Bolsonaro era um zero à esquerda, todos sabiam, mas, ele foi eleito por uma grande maioria que não tinha ligação fanática com ele, mas que acreditaram em seu discurso de uma "nova política", desatrelada do grupo fisiológico do Congresso Nacional, sem o toma-lá-dá-cá que foi responsável por criar o Mensalão e o Petrolão.

Grande parcela dos votos que ele recebeu foi de apoiadores da Operação Lava Jato que, pela primeira vez, em mais de 500 anos, levava para o xadrez os caciques do Poder (políticos, agentes públicos, empresários); foi também de grupos de pessoas que clamavam por um intervenção militar no governo, diante de tamanho descalabro, onde o Brasil passou a ser conhecido como uma Cleptocracia - Governo de Ladrões, e que achavam que os militares no poder seria a única solução viável.

Todos, entretanto, caíram no conto do vigário, pois ao apoiarem Bolsonaro, deram asas e foro privilegiado ao corrupto que se escondia, há 28 anos, atrás do discurso da honestidade e contra a corrupção. Veja o que Bolsonaro disse em entrevista ao Programa Câmera Aberta no dia 9 de junho de 1997:

Tem muitos parlamentares que recebem uma denúncia e vão depois barganhar, vão pegar a fita e vão barganhar: “me dá isso, me dá aquilo” que a gente joga esta fita fora. (...) O Poder Público, hoje, de maneira geral, está aí para achacar, para assaltar, para roubar o povo. E digo mais: o nosso Parlamento, lá em Brasília, só existe para dizer que existe Democracia.

Em maio de 1999, no mesmo programa da Record, o deputado federal Jair Bolsonaro falou grosso contra os corruptos do Congresso Nacional e dizendo-se desiludido com a Democracia:

Através do voto você não muda nada neste país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil aqui dentro e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando pelo FHC, não deixar ele fora não, matando! Se vão morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente

No discurso que proferiu no Congresso Nacional, no ato de sua posse na Presidência da República, Jair Bolsonaro reafirmou seu compromisso de lutar contra a corrupção:
(...) Montamos nossa equipe de forma técnica, sem o tradicional viés político que tornou o Estado ineficiente e corrupto. (...) A construção de uma nação mais justa e desenvolvida requer a ruptura com práticas que se mostram nefastas para todos nós, maculando a classe política e atrasando o progresso. (...) A irresponsabilidade nos conduziu à maior crise ética, moral e econômica de nossa história. Hoje começamos um trabalho árduo para que o Brasil inicie um novo capítulo de sua história. (...)

Mas, todas as promessas logo iriam por água abaixo. Jair Bolsonaro, em menos de um ano à frente do Governo, viu diante da exposição da imagem suja que ele tinha e que se esmerava tanto em mantê-la escondida. Ele, enfim, era confrontado com a verdade: ele não passava de mais um corrupto dentre tantos. Como foi descoberto, deixou de lado a máscara de bonzinho que ornava sua imagem pública e se juntou àqueles que estão aí "para achacar, para assaltar, para roubar o povo". No caso, os mesmos políticos a quem ele chamava de achacadores e que sobrevivem de atuarem em órgãos públicos para roubar a nação.


Fabrício Queiróz, motorista do ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro e fiel escudeiro da Famiglia Bozonaro, enfim, entrou na linha de fogo do Ministério Público por conta de sua atuação de liderança na roubalheira de dinheiro público ligado ao Gabinete de Flávio Bolsonaro.
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Ligado a milicianos do Rio de Janeiro, cidade onde morava Jair Bolsonaro e onde seu filho '03' atuava na Política, Queiróz, de acordo com investigações da Polícia, recebia parte dos salários de assessores de Flávio Bolsonaro, que trabalhavam em seu Gabinete na Alerj e o salário integral de muitos assessores ali lotados, mas que nunca prestaram serviço ao deputados, pois eram funcionários fantasmas.
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O cerco foi apertando e agora descobre-se que não era apenas o Flávio Bolsonaro o único que tinha ligações "suspeitas" com o Queiróz, mas o próprio Jair Bolsonaro, que colocou sua esposa, Michele Bolsonaro, para ser a guardiã do dinheiro sujo repassado por Queiróz ao mandatário da República. Apenas em cheques, foi verificado que a primeira-dama recebeu de Queiróz 21 depósitos, totalizando R$ 72 mil. A mulher de Queiróz também depositou em cheques na conta de Michele, R$ 17 mil.

Dados de quebra do sigilo bancário obtido pelo MP do Rio mostram que Fabrício Queiroz recebeu R$ 2 milhões de 13 assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Foram 483 depósitos na conta bancária de Queiroz provenientes de assessores subordinados a Flávio Bolsonaro. O período analisado foi de 2007 a 2018. (Crusoé/O Antagonista)

 


[1]  No dia 16 de novembro de 2017, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que participava de evento na Universidade Brown, em Washington (USA), de acordo com a jornalista Claudia Trevisan, do Estadão, teria afirmado "Eu não quero entrar em detalhes, mas há pessoas da direita que são pessoas perigosas", disse FHC. "Um dos candidatos propôs me matar quando eu estava na Presidência. Na época, eu não prestei atenção. Mas hoje eu tenho medo, porque agora ele tem poder, ainda não, ele tem a possibilidade do poder." Entretanto, FHC que já previa em 2017 a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 também deixou claro que considerava o deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a principal ameaça por não saber se ele estaria comprometido com a Constituição, com o respeito às leis e aos Direitos Humanos. (TREVISAN, Claudia. Estadão. Conteúdo. 17 nov. 2017).

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