A justiça não consiste em ser neutro entre o certo e o errado, mas em descobrir o certo e sustentá-lo, onde quer que ele se encontre, contra o errado.
Theodore Roosevelt
Conhecido pela luta contra a corrupção e a impunidade no Brasil, Sergio Moro foi o juiz da megaoperação Lava Jato, que desde 2014 prendeu dezenas de empresários e políticos, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No final de 2018, o famoso juiz renunciou aos 22 anos da magistratura ao concordar em ser Ministro da Justiça de Bolsonaro. No entanto, a trajetória de Moro no Executivo chegou ao fim em abril passado, quando ele renunciou alegando uma suposta "interferência" do presidente, Jair Bolsonaro, na Polícia Federal em assuntos relacionados a investigações que possam afetar alguém de seus filhos.
O ex-magistrado, membro mais popular do Governo durante os 15 meses em que foi ministro, desencadeou uma investigação conduzida pelo Supremo Tribunal Federal com suas denúncias, que esclarece se Bolsonaro interferiu. Caso as denúncias sejam comprovadas, o presidente - de quem também censura a gestão da crise de saúde no Brasil - poderá ser julgado e até destituído.
O presidente Bolsonaro foi infectado com coronavírus, embora pareça já ter se recuperado com um teste negativo. Como você recebeu essa notícia?
Quando eu estava no governo, eu era crítico e sempre dizia que era necessário ter uma política federal voltada para o combate à pandemia. Porém, com todo o respeito ao presidente, houve uma omissão por causa da negativa de Bolsonaro e isso foi muito negativo para o país.
A situação política é tensa no Brasil. Tem havido um pequeno grupo que afirma ser o defensor do presidente, assediando o Supremo Tribunal Federal, por exemplo. Você acha que o país está perto de um colapso institucional?
Não há ruptura em curso e o próprio presidente contribuiu com um discurso mais moderado. O que deve ser desaprovado é essa evocação para gerar instabilidade, o que vem ocorrendo por causa de declarações ambíguas do Planalto - palácio presidencial -.
Existem realmente milícias armadas defendendo o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro?
No Brasil o que existe é uma polarização política prejudicial, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, e as redes sociais têm sido utilizadas para divulgar essas ameaças, notícias falsas, esse discurso de ódio. E isso não é bom para a democracia.
De alguma forma, com aquele complô de corrupção ele foi o responsável pela queda do Partido dos Trabalhadores (PT) de esquerda. Você se sente responsável pela ascensão ao poder do Bolsonaro de extrema direita?
De maneira nenhuma. O que o complô Lava Jato fez foi desmascarar um complô de corrupção e vários partidos foram afetados, como o PMBD (partido do centro) de Eduardo Cunha - ex-presidente do Congresso também condenado por corrupção. A operação não teve nenhuma bandeira partidária, tudo foi feito com base em evidências.
Existe aquele chamado Gabinete do ódio, supostamente dedicado à divulgação de notícias falsas na internet e cuja liderança é atribuída a Carlos Bolsonaro do palácio do Planalto?
Há uma investigação do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto, há poucos dias, o Facebook anunciou que estava desativando uma série de contas e páginas vinculadas a assessores do Bolsonaro-. O que se pode dizer é que existe uma rede, um grupo nas redes sociais que espalha ameaças em massa, notícias falsas, geralmente a favor do Governo. Se essa rede for associada ao Planalto, é um assunto sob investigação. Mesmo quando saí do Governo, nos dias que se seguiram, recebi muitas informações sobre notícias falsas que circulavam não só no Twitter, Facebook, mas também no WhatsApp, que eram coisas absurdamente falsas, inventando atos de natureza criminosa, então isso não é democracia e isso já é indicativo de manipulação do debate público.
Houve partidos que o abordaram para propor ser candidato nas eleições presidenciais de 2022?
Acho que nosso acento tem que estar na pandemia, na economia, na retomada da agenda anticorrupção e em outras agendas de reforma.
Como você vê o futuro do Brasil? Existe uma figura que pode se opor ao Bolsonaro?
O Brasil é uma democracia consolidada. É importante falar para a mídia internacional justamente porque o país tem uma imagem muito ruim. É uma das principais economias do mundo. Temos nossos problemas, mas estávamos avançando. A própria Lava Jato foi muito elogiada internacionalmente. A visão de um grande Brasil deve ser retomada, não como algo imperial, mas como um país acolhedor e tolerante que avança com reformas.
Fonte: NODAL.

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